
Os olhinhos escuros e melancólicos dela estão olhando para o mar lá embaixo. A maresia sopra as roupas penduradas no varal que a mãe dela acabou de lavar. O cheiro de comida vindo da minúscula cozinha é forte e tentador. Eu pergunto:
-No que você está pensando?
-Se o meu irmão vem almoçar.
Ninguém sabe quem é o pai do irmão dela. Hoje é domingo e ele costuma vir almoçar com a família. A menina mal sibila as palavras, mas alguma coisa já a avisa da fragilidade dessa vida. Eu não me lembro de ter preocupações até ontem e ela se preocupa com o irmão.
A mãe deve ter uns dez anos a mais do que eu. Poderia ser minha amiga. É o que ela se considera, eu acho, a julgar pelo branco dos dentes que ela me mostra quando nos chama para entrar.
Eu nunca tinha vindo à favela antes. São caminhos apertados e tortuosos que nos levam a barracos que, às vezes eu penso, o vento há de soprar. Ou a chuva, de levar. Ou a terra, de comer.
Não faço a menor ideia de quem construiu aquelas escadas mal feitas. Só sei que elas se confundem, se cruzam, e não param mais até lá no alto do morro.
É claro que foi avisado que eu viria aqui. Muito playboy vem comprar droga e nada sofre. A menos que ele dê o azar de subir no meio de algum "confronto político".
Mas eu não vim comprar droga. Eu vim visitar a minha lindinha. E ela se aninha nos meus braços enquanto a mãe reclama do preço do leite.
- Tia - resmunga, levantando as duas jabuticabinhas para me encarar -, eu quero morar no asfalto com você.





