Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Ela


Os olhinhos escuros e melancólicos dela estão olhando para o mar lá embaixo. A maresia sopra as roupas penduradas no varal que a mãe dela acabou de lavar. O cheiro de comida vindo da minúscula cozinha é forte e tentador. Eu pergunto:

-No que você está pensando?
-Se o meu irmão vem almoçar.

Ninguém sabe quem é o pai do irmão dela. Hoje é domingo e ele costuma vir almoçar com a família. A menina mal sibila as palavras, mas alguma coisa já a avisa da fragilidade dessa vida. Eu não me lembro de ter preocupações até ontem e ela se preocupa com o irmão.

A mãe deve ter uns dez anos a mais do que eu. Poderia ser minha amiga. É o que ela se considera, eu acho, a julgar pelo branco dos dentes que ela me mostra quando nos chama para entrar.

Eu nunca tinha vindo à favela antes. São caminhos apertados e tortuosos que nos levam a barracos que, às vezes eu penso, o vento há de soprar. Ou a chuva, de levar. Ou a terra, de comer.

Não faço a menor ideia de quem construiu aquelas escadas mal feitas. Só sei que elas se confundem, se cruzam, e não param mais até lá no alto do morro.

É claro que foi avisado que eu viria aqui. Muito playboy vem comprar droga e nada sofre. A menos que ele dê o azar de subir no meio de algum "confronto político".

Mas eu não vim comprar droga. Eu vim visitar a minha lindinha. E ela se aninha nos meus braços enquanto a mãe reclama do preço do leite.

- Tia - resmunga, levantando as duas jabuticabinhas para me encarar -, eu quero morar no asfalto com você.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

os velhos


Não sei por que as pessoas subestimam as memórias deles.
Se houvesse um pouco mais de paciência - e se ignorássemos os fatos de eles serem repetitivos, confusos, e de às vezes passar do ponto e falarem mais da sua vida do que seria conveniente ouvirmos - poderíamos descobrir um mundo de possibilidades. Eu poderia escrever um livro só com as memórias que já escutei.
Não que eu seja a Madre Teresa de Calcutá, que fique escutando aqueles que se sentem sozinhos. Mas é fascinante ouvir a minha avó falar de quando pegava o bonde - o bonde! - e atravessava a cidade do Rio de Janeiro para ir a bailes. Do tempo em que se usava broche. Do tempo em que se usava laço. Do tempo em que se podia usar joias.
Minha avó, com quem eu muitíssimo me pareço e a quem sou muitíssimo apegada, gosta de histórias. Ela poderia morar numa biblioteca. E ela amou um homem a vida inteira - que também a amou. Me lembra Diário de uma Paixão, com algumas exceções, claro. Ninguém escondeu as cartas dele e não deu tempo de um dos dois ficar pinel. Meu avô se foi cedo demais, e completamente lúcido.
Eles têm uma vantagem sobre nós: o grande triunfo do tempo. Uma prova? Leite derramado não é bom só por ser do Chico. É um dos livros mais sensíveis que já li.

Quem passou pelo que nem sonhamos passar, assistiu a um desfile de anos e anos à sua frente e dedicou a sua vida inteira a alguma coisa, fosse a uma outra pessoa, como no caso de minha adorada vovozinha, fosse a algum trabalho, fosse à família, tem moral para falar o que quiser de mim. Tem moral para me dar conselhos. E merece, por mais confuso que esteja, todo o respeito e carinho dos mais novos.

Sábado, 2 de Maio de 2009

sobre a literatura.

atravesse todos os obstáculos que você possa atravessar, reúna algum dinheiro e vá estudar no exterior.
faça alguma coisa além para ser além desses apaixonados por livros que você vê por aí, fracassados que ficam de bar em bar falando de digressões ao invés de manter o foco em algum objetivo.
conquiste respeito e uma cadeira, seja a cadeira onde for.
siga aquele que é seu instinto junto com o amor; porque você coloca os livros, as letras e as palavras na mesma prateleira onde você coloca as poucas pessoas nesse mundo inteiro que você mais ama.
os seus pais, a sua irmã, a sua avó, a sua madrinha, meia dúzia de amigos e os livros que você passaria o resto da vida lendo. uma prateleira só onde estaria tudo pelo que você vive.
coisas pelas quais você reúne um amor irracional do qual não espera retorno nenhum. e pelas quais você continuará loucamente apaixonada até seu último suspiro.

Ufa!, parafraseando a Vírgula querida.


*e por favor não vire uma intelectual chata de óculos quadrados e pretos bebendo demais em algum café em Paris. isso é clichê demais pra você.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

O encontro de Fernando Lugo e o Porco Mexicano


Porco: Arriba, arriba! Como vão as coisas aí embaixo?
Lugo: Bién, o Paraguai fez um acordo para...
Porco: Estou falando das suas calças, mal parido. Você tem mantido seu compañero onde ele deveria estar?
Lugo: Agora tenho...só não mantive quando fui Bispo. E mal parido não sou eu... são os bastardos.
Porco: Ustedes da América do Sul estão sempre acabando com a moral e os bons costumes.
Lugo: Pior você, que acaba com a saúde dos outros!
Porco: É terrível ser apontado como culpado pela desgraça alheia...
Lugo: Eu sei...tudo o que fiz foi dar um pouco de prazer a algumas pagãs e agora todos me culpam.
Porco: E o pior é ver a coisa se alastrando...em efeito dominó. Cada vez mais gente.
Lugo: Eu entendo exatamente o que você quer dizer.
Porco: Mas eu não tenho culpa! Já você, um homem adulto, deveria encarar as consequências dos seus atos.
Lugo: O quê? Você não tem culpa? Seu vírus está dentro do organismo de dezenas de pessoas que...
Porco: Desculpe, dentro do quê?
Lugo: Do organismo. Das pessoas.
Porco: Ah, achei que você estava falando do meu desempenho sexual. De repente, pensei em Aids, sífilis, gonorreia.
Lugo: O quê?
Porco: Ué, todo mundo sabe que meu orgasmo dura 30 minutos. Mas você nem sonha com isso, porque do jeito que seu dna anda espalhado por aí, o seu não deve durar nem 30 milésimos de segundo.
Lugo: Seu porco safado!
Porco: Isso foi um xingamento? Volta pra zona franca, cara.
Lugo: É pra lá mesmo que eu vou. Meu assessor tá me bipando.
Porco: Assessor, né? Sei.

Sábado, 11 de Abril de 2009

O cravo e a rosa


Minha faceta chocólatra-romântica-depressiva dando as caras com a TPM:

Ela era enérgica demais, ansiosa demais, perfeccionista demais. Achava que o trabalho era sua vida, e acreditava que a felicidade era não dever nada a ninguém, por mais suor e sacrifício que isso lhe exigisse ao longo dos anos.
Ele não estava muito preocupado com essas coisas, que considerava pequenas demais. Entendia que a grandeza da vida era muito melhor encarada quando não existissem preocupações no caminho, ou quando não se criassem preocupações.
Ela perdia a paciência muito rápido, pecava por arrogância, chorava, demonstrava toda a insegurança que havia dentro de si e no dia seguinte fingia que nada acontecera. Transitava por todas as emoções que podia ter em questão de minutos.
Ele, pai da estabilidade, apenas a acalmava, e não queria que ela soubesse, mas achava essa sua loucura adorável.
Ela pensava em letras; ele, em paisagens.
Ela queria o mundo; ele, uma casa.
E no final, os espinhos dela acabaram por afastá-lo, como faziam com todos que ousassem amá-la.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Um sopro de vida


Sonhei que todos os objetos tinham se tornado animados.
Levei um papo com a cadeira. Ela, que havia sido criada em Oxford, dispôs-se a me contar os mitos da pequena cidade e as fantásticas figuras universitárias que já tinham sentado seus ilustres bumbuns sobre aquela mesma superfície de madeira. O papo ia bem até ela me oferecer um chá e eu fazer um trocadilho perguntando se era chá de cadeira, logo depois me censurando, pois não poderia ser um chá de cadeira, já que a cadeira, confirmando a famosa pontualidade britânica, havia chegado na hora para nosso papo.
O trocadilho ficou estranhíssimo em inglês, e a cadeira, que nunca havia ouvido tal piada, deu-me um olhar complacente, cheio de dó, provavelmente se perguntando de que hospício eu havia fugido.

Resolvi não me desculpar nem dar nenhuma explicação e, levantando-me de uma das colegas da cadeira, dirigi-me à cozinha para tomar um café.

-Ai! - gritou, histérica, a delicada xícara de porcelana que eu agora levava à boca. - Que mania vocês têm de tomar café quente! Isso acaba com a minha beleza!
-Desculpe - murmurei, envergonhada, afastando a pobre xícara dos lábios. - Vou te lavar e te colocar de volta no teu lugar.
-Não! Quer que eu tenha um choque térmico? Esquente a água antes de me lavar. - e eu, cuja paciência tem um limite muito questionável até em sonho, mandei a xícara calar a boca e argumentei que antes um choque térmico do que ficar sujinha. A xícara, fresca que era, achou esse um argumento razoável e, embora muito a contragosto, permaneceu calada.

Achei que já havia vivido emoções suficientes para aquele dia e fui tomar um banho quente a fim de relaxar. Qual não foi a minha surpresa quando o chuveiro assobiou e me fez um elogio grosseiro. Apavorada, me enrolei na toalha e saí gritando, sem nem mesmo desligar o galante chuveiro, que ficou lá, perguntando meu telefone.

Após conseguir me secar e parar de tremer, coloquei um pijama que, pelo menos, já estava dormindo e não tinha nenhum palpite para dar. Deitei-me na cama, mas ela, que era homossexual, começou a reclamar de sua companheira, a cabeceira, sem querer respeitar o meu sono ou saber se eu estava cansada ou se seus lençóis estavam cheirosos. Não era uma boa cama, aquela. E pôs-se a tagarelar, fazendo com que eu pegasse o travesseiro - que estava entediado, coitado - e tapasse a minha cabeça com ele, apertando-o de modo que eu não ouvisse mais nenhum som.

Acordei, com falta de ar.

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

é verão


Rio de Janeiro, praia, sol, mar, tudo muito bonito, contanto que você não esteja trabalhando e estudando em três ou quatro lugares diferentes da cidade e que não tenha que tomar ônibus, a maioria sem ar condicionado, para se locomover.

Como Murphy é amigo de todos os cariocas, tem sido uma sucessão de dias de semana ensolarados alternados com finais de semana nublados. A não ser nos últimos dois ou três finais de semana. No domingo, portanto, achei que São Pedro estava me mandando um sinal e resolvi assumir meu lado farofeiro, encarando o posto 9 de Ipanema.

Só tinha esquecido por que eu o-dei-o praia no final de semana.

Eu e minha irmã escolhemos um ponto mínimo de areia que não era ocupado por tangas, barraquinhas, cadeirinhas, piscininhas ou arrastõezinhos. Estendemos, humildes, nossa canga azul da cor do mar - ok, não daquele mar em potencial, porque as águas estão meio poluidas demais e tenho sentido medo de ir dar um mergulho e voltar com três orelhas ou cinco braços - e nos sentamos para, branquelas que somos, nos proteger dos raios ultravioletas com FPS 30.

Mal eu havia terminado de passar o grudento líquido em meu não tão mais magrelo corpitcho, me passa um daqueles vendedores que são criaturas diretamente vindas do INFERNO, que berram na sua orelha, enchem o teu saco e ainda te cobram os olhos da cara, e joga areia na minha não mais esguia silhueta. Ok. Pelo menos não havia crianças por perto. As crianças, essas sim, são campeãs em arremesso de areia.

Hora de fazer uma das coisas mais saudáveis e divertidas que há para se fazer na praia. Não, não é dar um mergulho. Não, não é jogar altinha. Muito menos vôlei. Cara, não enche, não é hora de fazer nada que se relacione ao bem estar físico, a mostrar meu new rechonchudo body, nem coisas que as pessoas felizes fazem. Tá na hora de assumir minha faceta voyeur. Tá na hora de falar e pensar mal dos outros.

-Olha aquela mulher ali! Será que ela não sabe que javalis simplesmente não usam fio dental?

-Você acha que o gringo tá pagando pra sair com aquela ali?

-Por que tem garotos de 14 anos fumando maconha? E como eles vêm pra praia de bicicleta se pretendem apertar um? Que coisa mais....pinkfloydiana.

Ao nosso lado, havia um grupo de pseudo surfistas, prováveis moradores da zona sul (ou da Tijuca, ou seja, a zona norte da zona sul), rindo e tendo uma conversa muito profunda:

-E aí, quê que tu tem feito?
-Aaaaah, nada demais, ontem eu saí com a galeeeera, a gente foi ali no (qualquer lugar caro da zona sul onde as pessoas sejam fabricadas em série e pareçam ter saído de uma mesma forma e marcharem em fila) e achamo um saaaaaco...

Desses a gente não podia falar. Eles eram vazios, não surdos. Olhei para a cara da minha irmã e fiz a pergunta derradeira:

-Vambora?